Conheça Pedro Alliana o novo presidente do Paraguai
Pela Constituição, Pedro Alliana completará o mandato de Santiago Peña até 15 de agosto de 2028, sem convocação de novas eleições presidenciais.
O Paraguai tem um novo presidente. Pedro Alliana, de 52 anos, assumiu o comando do país nesta sexta-feira (6), após o Senado aprovar por unanimidade o impeachment de Santiago Peña. A mudança ocorre em meio à crise política e financeira desencadeada pela quebra do banco digital Ueno Bank, que deixou milhares de clientes sem acesso aos recursos depositados na instituição.
Integrante do Partido Colorado, legenda que governa o Paraguai desde 2013, Alliana chega à Presidência com uma trajetória política marcada pela proximidade com o ex-presidente Horacio Cartes, principal liderança do movimento Honor Colorado.
Pela Constituição paraguaia, o novo presidente deverá concluir o mandato de Peña, com término previsto para 15 de agosto de 2028. A sucessão dispensa a convocação de novas eleições presidenciais.
A permanência de Alliana no governo também ocorre após ele próprio ter sido alvo de um pedido de impeachment apresentado pela oposição. Os parlamentares o acusaram de omissão diante das irregularidades relacionadas ao Ueno Bank. A Câmara dos Deputados rejeitou a denúncia por 48 votos a 30, permitindo sua ascensão à Presidência.
Da atividade comercial à liderança política
Nascido em 19 de fevereiro de 1974, em Pilar, no departamento de Ñeembucú, no sul do Paraguai, Hércules Pedro Lorenzo Alliana Rodríguez é conhecido como "Mangui". Antes de ingressar na política, trabalhou no comércio e chegou a integrar a seleção paraguaia de basquete, em 1991. É formado em Relações Internacionais pela Universidade Autónoma San Sebastián.
Sua trajetória política começou em 2000, quando ingressou no Partido Colorado, apesar de seus pais terem mantido vínculos com o Partido Encuentro Nacional, historicamente identificado com a oposição à hegemonia colorada.
Em 2006, disputou a prefeitura de Pilar, sem conseguir se eleger. Dois anos depois, conquistou seu primeiro mandato ao vencer a eleição para governador de Ñeembucú, cargo que ocupou até 2013.
Naquele ano, foi eleito deputado federal e posteriormente reeleito em 2018. Também presidiu a Câmara dos Deputados em diferentes períodos, incluindo entre 2019 e 2022.
A aproximação com Horacio Cartes se fortaleceu durante sua passagem pelo Legislativo. Com o apoio do ex-presidente, Alliana chegou à presidência da Associação Nacional Republicana (ANR), nome oficial do Partido Colorado, em 2016. Permaneceu na direção da legenda até janeiro de 2023, quando foi sucedido pelo próprio Cartes.
Na eleição presidencial daquele ano, integrou a chapa de Santiago Peña, vencedora da disputa.
Posição conservadora e defesa de investimentos
Politicamente, Alliana está alinhado à ala conservadora do Partido Colorado. Defende pautas relacionadas à proteção da família e à preservação de valores tradicionais.
Em 2023, manifestou-se contra um acordo de cooperação educacional entre o Paraguai e a União Europeia. Na avaliação do então vice-presidente, o entendimento poderia abrir espaço para discussões sobre ideologia de gênero nas escolas. Ele defendeu alterações no documento para preservar os valores familiares paraguaios.
Na economia, sustenta uma agenda favorável à iniciativa privada, com impostos baixos, redução da burocracia e estímulo ao investimento estrangeiro.
Em setembro de 2023, durante encontro com empresários brasileiros, afirmou que o Paraguai oferecia estabilidade econômica, segurança jurídica e condições favoráveis ao capital estrangeiro. Também declarou que o governo não pretendia elevar a carga tributária.
Em novembro deste ano, voltou a defender a manutenção dos impostos, afirmando que não aumentaria a carga tributária caso chegasse à Presidência.
Reaproximação com Horacio Cartes
A relação entre Alliana e Cartes passou por um período de tensão neste ano. Em abril, o então vice-presidente confirmou a intenção de disputar a Presidência nas eleições de 2028, inicialmente com apoio de Cartes e do próprio Peña.
O cenário mudou em 13 de outubro, quando Cartes comunicou a Alliana que apoiaria o ministro Juan Carlos Baruja como pré-candidato à sucessão presidencial.
Insatisfeito, Alliana criticou a decisão, afirmou que acordos políticos não haviam sido respeitados e chegou a admitir a possibilidade de disputar a eleição fora do movimento Honor Colorado. Também defendeu autonomia para exercer a Presidência, sem imposições políticas.
A crise do Ueno Bank alterou novamente o cenário. Em 2 de novembro, Alliana anunciou a suspensão de sua pré-candidatura para concentrar esforços no enfrentamento da crise. Três dias depois, voltou a se reunir com Cartes na sede do Partido Colorado, em Assunção, em uma movimentação que sinalizou a reaproximação entre os dois.
Controvérsia envolvendo contratação da filha
A trajetória de Alliana também registra uma controvérsia envolvendo a nomeação de sua filha, Montserrat, para um cargo público.
Em janeiro de 2024, uma investigação publicada pelo jornal paraguaio ABC Color revelou que ela havia sido contratada em setembro de 2023 como assessora da Câmara dos Deputados, sem concurso público, com salário mensal de 18,27 milhões de guaranis, aproximadamente R$ 16 mil.
Na época, Montserrat tinha 25 anos e ainda não havia concluído o ensino superior. A nomeação foi realizada pelo então presidente da Câmara, Raúl Latorre, também integrante do Partido Colorado.
O caso provocou denúncias de possível nepotismo e foi encaminhado ao Ministério Público. Alliana negou ter interferido na contratação e argumentou que a filha ocupava um cargo de confiança, dispensado de concurso público.
Em julho de 2024, a Justiça arquivou a denúncia, após a Promotoria concluir que não havia elementos suficientes para caracterizar crimes como tráfico de influência e lesão de confiança.
Críticas ao presidente Lula
Na política externa, Alliana também protagonizou um episódio de tensão diplomática com o Brasil. Em julho deste ano, quando exercia interinamente a Presidência paraguaia, criticou declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra da Tríplice Aliança, conflito ocorrido entre 1864 e 1870.
Lula afirmou, durante um evento no Brasil, que o Paraguai havia invadido territórios brasileiros e de outros países vizinhos, desencadeando a guerra. Alliana classificou as declarações como "inoportunas" e disse que atingiam profundamente o sentimento nacional paraguaio. Também descreveu o conflito como um genocídio contra seu povo.
Na ocasião, participou, ao lado do chanceler Rubén Ramírez Lezcano, da entrega de uma nota diplomática de protesto ao embaixador brasileiro em Assunção. O documento contestou a interpretação histórica apresentada por Lula e solicitou a devolução de troféus de guerra, entre eles os canhões Cristiano e Presidente López, além de cópias de documentos históricos mantidos pelo Brasil.
Casado com a deputada Fabiana María Souto e pai de quatro filhos, Alliana assume a Presidência em um momento de instabilidade institucional e econômica. Seu principal desafio imediato será conduzir a transição política e enfrentar os efeitos da crise bancária, enquanto mantém a articulação com as forças que sustentam o Partido Colorado no poder.
Fonte GDia
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